A razão em crise
No final do séc. XIX e início do Séc. XX, a verdade não é mais absoluta e as teorias científicas não seguem o padrão de evolução e progresso tão idealizados pelo Positivismo de Comte ou mesmo pelas idéias de Kant, Marx e Freud de que é possível uma ciência livre das emoções: “A ciência, por mais pura que seja, é o produto de seres humanos engajados na fascinante aventura de viver suas vidas pessoais” (Frederich Perls, et. al., p. 24). Ao invés de querer encontrar fundamentos e critérios para a ciência na lógica ou em regras metodológicas, como fez Descartes, os novos filósofos da ciência, entre eles Thomas Kuhn, passam a examinar a ciência através de sua história, do comportamento dos cientistas e das razões que levam o cientista a escolher uma teoria.
Outro rompimento provocado no ideal racional de encontrar a verdade ou “uma verdade”, dá-se pela teoria anarquista de Paul Feyerabend, que em seu livro Contra o Método (1970), questiona o status da ciência, ao afirmar que nenhuma metodologia proposta até a pós-modernidade consegue ser bem sucedida. As metodologias pretendem dar regras para a orientação de escolhas e decisões científicas, mas, na verdade, as teorias são escolhidas por julgamentos estéticos, de gosto, preconceitos metafísicos ou desejos religiosos. Portanto, algumas teorias são incomensuráveis, isto é, duas teorias rivais “podem ser tão radicalmente diferentes que não é nem mesmo possível formular conceitos básicos de uma teoria nos termos da outra. Não é possível comparar logicamente duas teorias rivais” (CHALMERS, 1993, p. 177).
Outra questão apontada por Feyerabend é: a ciência não é necessariamente superior a outras áreas do conhecimento. Por isto, a contemporaneidade não sustenta mais a idéia de que a ciência é uma forma de conhecimento superior ao senso comum. Freud escreveu uma carta a Einstein em 1932, onde perguntava se toda ciência não se reduzia a um certo tipo de mitologia? (apud RIEFF, Freud: The Mind of the Moralist, p. 224). O cientista virou um mito. Com seu avental branco, aparece nos noticiários de TV como o ‘sacerdote do saber’, o ‘dono da verdade’. Mas ele não é uma pessoa que pensa mais ou melhor do que as outras. Não raro, damos a eles o poder de pensar por nós, acreditamos que eles são especializados em pensar corretamente e apenas seguimos o que eles mandam. Desta forma, é necessário questionarmos o mito do “cientista como o investigador sem preconceitos em busca da verdade; explorador da natureza – o homem que rejeita idéias preconcebidas quando entra no laboratório, que coleciona e examina fatos crus, objetivos, e é . el a tais fatos e só a eles” (KUHN apud Rubem Alves, 2003, p. 203). O senso comum e a ciência estão, de maneira geral, à procura do mesmo: da compreensão do mundo com a intenção de viver melhor.
As Ciências Humanas
Outra mudança significativa que ocorreu neste período foi o surgimento das ciências humanas. São elas: as ciências sociais (antropologia e sociologia), a psicologia, a economia, a lingüística e a história.
As ciências humanas se caracterizam por ter como objeto de estudo o próprio homem. O problema de ter surgido após o avanço e forte consolidação de outras ciências, fez com que o modelo de cientificidade e os métodos utilizados pelas ciências humanas estivessem muito atrelados às ciências matemáticas e naturais. Portanto, os primeiros estudos nas ciências humanas tinham como modelo a matemática e a experimentação, como o comportamentalismo de Skinner na Psicologia.
Contudo, esta associação estava com seus dias contados, já que quanto mais os estudos sobre o homem avançavam, mais as teorias não davam contam de utilizar este modelo. Aponta Chauí (1997): “Os fatos humanos são históricos, dotados de valor e de sentido, de significação e finalidade e devem ser estudados com essas características que os distinguem dos fatos naturais”. A partir disto, surge a necessidade de criar um novo método de explicação que dê conta de explicar os tão plurais e diversos fatos humanos. Um dos debates mais ricos sobre a Epistemologia das ciências humanas foi realizado por Michel Foucault em seu livro “As Palavras e as Coisas” (2002). Neste, ele aponta as ciências humanas como fruto de um triedro de saberes, no qual temos a contribuição da matemática nos cálculos estatísticos; da biologia, ao possibilitar o conhecimento fisiológico do organismo humano; e da linguagem ao nos dar acesso à compreensão das instituições sociais e à forma com que as sociedades se organizam e classificam o que é valioso.
Revolução científica
Com os estudos feitos pela sociologia e a psicologia, foi impossível que as ciências naturais saíssem ilesas. Assim, Thomas Kuhn, ao observar a história, percebeu a característica revolucionária do progresso científico, na qual “uma revolução implica o abandono de uma estrutura teórica e sua substituição por outra, incompatível” (CHALMERS, 1993, p. 123). Como exemplo desta revolução, temos: o abandono de modelos científicos tradicionalmente aceitos como o modelo geocêntrico (Terra como centro do universo), que foi substituído pelo modelo de Copérnico, heliocêntrico (Sol como centro do universo) e o modelo newtoniano de física, que foi superado por um novo paradigma como a teoria da relatividade de Einstein. Efetivando-se o que Kuhn chamou de ‘Revolução Científica’.
De acordo com Kuhn (1994), filósofo da ciência, são o momento de ruptura epistemológica onde são criadas novas teorias, métodos e tecnologias que interferem em todos os campos de conhecimento humano. Já por paradigma entendemos: “Um composto de suposições teóricas gerais e de leis e técnicas para a sua aplicação adotadas por uma comunidade científica específica.” (CHALMERS, 1993, p. 124), isto é, são respostas mais gerais sobre o mundo do que as teorias podem abranger.
As revoluções científicas acontecem porque em um determinado momento um paradigma, tradicionalmente aceito, passa a conter mais anomalias (enigmas que não conseguem ser respondidos pela teoria) do que respostas para um determinado problema, constituindo-se assim numa crise. Não uma crise comum, mas uma crise que compromete os fundamentos do paradigma, no qual os cientistas não conseguem mais encontrar soluções.
Ética e ciência
Na Idade Moderna, principalmente com Descartes e Bacon, acreditava-se que a ciência seria capaz de nos oferecer respostas verdadeiras sobre a realidade e que essas melhorariam nossas vidas. Contudo, depois das duas grandes guerras, o homem pós-moderno percebe que as utopias estavam derrubadas e eram insuficientes para resolver nossos problemas. Assim, a ciência, que na Idade Média carecia de neutralidade já que muitos foram queimados por suas idéias revolucionárias, passa a ser vista como um campo no qual há outros interesses e valores além do próprio conhecimento na escolha de teorias.
Deste modo, nesta seção, você conhecerá um pouco do debate sobre ética e ciência, que ainda permanece bastante atual.. Há um debate entre filósofos da ciência, como você viu nas teorias de Kuhn e Feyerabend, sobre a possibilidade da verdade. E esta discussão sobre a validade de uma teoria como uma interpretação da realidade é bem polêmica. Alguns, como Kuhn, acreditam que uma teoria é válida até que uma revolução científica aconteça e um novo paradigma explique melhor os problemas que a teoria anterior já não consegue responder. Já Feyerabend, coloca que “vale tudo”, isto é, que existem diversas interpretações da realidade, sendo apenas necessário que elas sejam coerentes e bem explicadas por cientistas razoáveis e não charlatões.
No entanto, há uma outra defesa, do filósofo Karl Popper, de que mesmo que teorias do passado sejam suplantadas por teorias atuais, e mesmo que elas sejam falsas, a ciência progride e aproxima-se da verdade e isto justifica sua adoção.
Qual a relação de tudo isto com a ética?
Hugh Lacey, em seu livro Valores e Atividade Científica afirma que é a partir da idéia de que o crescimento é um grande valor para a ciência e um produto do conhecimento, que ele se adere à concepção realista, amplamente aceita pela ciência moderna, pois é através dela que conseguimos avançar no conhecimento e no controle da natureza.
Por meio de uma ampla discussão sobre o Materialismo Científico, Lacey (1993) analisa se a ciência é livre de valores, questionando a crença de que a aceitação de teorias é neutra. A neutralidade é derivada da concepção realista de que a teoria representa o mundo tal como ele é, independente de suas relações com os seres humanos. Portanto, a tese da neutralidade tem como idéia principal que a ciência é livre de valores e, por isso acreditasse que as teorias científicas não cedem a um valor particular.
Mas como podemos saber se mesmo as melhores teorias representam o mundo adequadamente?
De acordo com Lacey (p. 19), estas perguntas surgem porque:
[...] não podemos comparar diretamente as nossas teorias com o mundo. “Representação” significa uma relação entre uma teoria e um domínio de fenômenos no mundo. Mas não podemos observar essa representação, além de a representação não ser uma das relações da ordem subjacente ao mundo e o termo “representação” não ocorrer nas próprias teorias científicas. Somos nós que produzimos as representações do mundo.
Lacey, como Popper, considera as representações como produtos humanos construídos historicamente através das práticas científicas, as quais empregam métodos provenientes da nossa capacidade humana de construir essas representações. Portanto, nossas experiências são o resultado da interação do homem com o meio e não simplesmente com o mundo. Então, para resolver essa questão Lacey propõe a substituição da neutralidade pela imparcialidade.
O que tem garantido a escolha do materialismo científico é a tecnologia, pois ao ser bem sucedida, ela parece provar que se consegue obter conhecimento do mundo tal como ele é. Isto também faz crer que o seu sucesso é produto de um conhecimento imparcial e livre de relações com valores morais e sociais.
Contudo, Lacey também se sustenta no argumento de Kuhn, de que a ciência não representa o mundo como ele é, mostrando apenas uma imagem que está relacionada com os nossos valores. Na avaliação da escolha das teorias científicas, Kuhn sustenta que os valores cognitivos são decisivos e têm preferência sobre outros valores. No entanto, quando há paradigmas em conflito, os valores morais e sociais são de extrema importância na avaliação das teorias científicas decorrentes das práticas científicas.
Podemos então perguntar: A ciência é livre de valores?
Não, ao menos de acordo com muitos dos atuais filósofos da ciência. Sempre que escolhemos teorias, estamos escolhendo valores cognitivos, sociais e morais, que desempenham papéis diferentes na escolha de teorias. Portanto, não podemos considerar a ciência neutra.
E podemos dizer que, às vezes, temos a impressão que podemos controlar o mundo, mas isso não passa apenas de um desejo.
domingo, 17 de maio de 2009
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